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terça-feira, 6 de julho de 2010

Masoquismo como um Caminho Espiritual (Dorothy Hayden, CSW)

Apenas nos últimos cem anos o masoquismo tem sido visto como perversão. Quando o psiquiatra do século XIX Krafft-Ebing colocou o termo masoquista sob a rubrica de “Patologia Geral” em seu famoso livro “Psichopathia Sexualis”, o masoquismo começou a ter uma fama ruim. Poucas décadas mais tarde, Freud escreveu sobre o masoquismo como uma função de sexualidade infantil, desenvolvimento incompleto, crescimento impedido, e irresponsabilidade infantil. Desde então, o masoquismo foi irrevogavelmente delegado ao gueto de “perversão” and a comunidade clínica viu isso como uma aberração patológica que precisava ser curada.

Nos milhares de anos antes disso, entretanto, uma conexão masoquista-espiritual prevaleceu através da maioria das civilizações. Onde a psicologia considerou masoquismo como uma doença, as religiões pré-século XIX viram como cura. Os antigos estavam em contato com os valores espirituais, físicos e emocionais do masoquismo. Para eles, era uma parte essencial da realidade; uma combinação da alma num estado de tortura, numa delícia arrebatadora, dor rara e paixão invencível que os levava para a experiência de uma união com algo maior que seus egos individuais.

Na tradição das religiões orientais, o desejo de ser batido e chicoteado refletia o desejo de “penitência” que muitas vezes envolvia humilhação, vergonha, dor, adoração e submissão. Nos monastérios e igrejas, cabeças curvadas, joelhos amarrados, mãos dobradas, cabeças cobertas and o corpo todo em prostração refletia a postura básica masoquista. Os escritores do Novo Testamento fizeram freqüentes menções à flagelação e à dor física. A “cena da paixão” de Cristo inteira, a narrativa que foi encaixada em nosso psiquismo coletivo por milhares de anos, envolve bondage, flagelação e crucifixão sendo sujeitado à vontade de um poder superior e a subsequente ressurreição para uma consciência transcendental. Os Psalmistas usavam a prática de chicotearem a si mesmos todos os dias. Era parte da tradição judaica, 500 anos antes de Cristo, chicotearem-se uns aos outros com açoites depois de terminarem suas preces e confessado seus pecados.

Flagelação em monastérios e conventos eram a ordem do dia. Santos como São William, São Rudolph e São Dominic ordenavam sempre aos seus discípulos para se açoitarem nas costas nuas. De flagelarem-se a si mesmos, os padres começaram a flagelar os penitentes como parte da penitência. Isso veio para ser seguido como necessário ato de submissão a Deus. Alguns homens santos sustentavam que o açoitamento tinha o poder de resgatar almas do inferno. Eles acreditavam que humilhação e dor física forneciam um meio para o indivíduo se tornar um ser humano completo.

Todas as ordens cristãs recentes usaram a flagelação como parte de sua disciplina espiritual. Santa Tereza, fundadora das Carmelitas, usava flagelação severa com parte sua prática diária. Através da bétula e do chicote ela entrava em estados de misticismo estático. A freira carmelita Caterina de Cardona usava continuamente correntes de ferro que cortavam sua carne. Ela se fustigava com as correntes e ganchos o mais frequentemente possível e às vezes por duas ou três horas seguidas. Dizia-se que através dessas práticas ela estava sujeita a êxtases místicos e visões da graça celestial.

No início do século XI, eremitas monásticos na Itália aceitavam a prática de auto-flagelamento e fugiram dos monastérios tomando ruas e igrejas. Chamada de Seita dos Flagelantes e organizada por Santo Antonio, estes monges criavam para si mesmos desejos frenéticos que só encontravam satisfação quando rasgavam suas carnes e se auto-degradavam. Os Flagelantes iam de uma cidade à outra em procissão, arrebanhando novos penitentes enquanto passavam. Às vezes chegando a dezenas de milhares, iriam marchar até à frente de uma igreja, formar ali um círculo e produzir uma cerimônia penitencial altamente ritualizada. Despidos até a cintura, os penitentes entoavam hinos e prostravam-se em contrição. O ritual culminava em flagelação severa de todos os participantes, muitas vezes durante horas. Ao final, estas figuras esquálidas, faces contra o chão com vergonha e prazer, as costas em carne-viva, os chicotes tingidos de sangue, eram elevados em êxtase como se uma transformação espiritual ocorresse com eles.

A cultura oriental não detém um poder exclusivo no uso da subjugação e da dor como parte da disciplina espiritual. Os monastérios zen-budistas são conhecidos pelo mestre usar um bastão nos discípulos e pela “bofetada” Zen que serve para levar a pessoa para um grau de consciência mais elevado. Os estudantes do Zen quase sempre se sentam com as pernas cruzadas num acolchoado por 14 horas por dia, sete dias por semana, submetendo-se a uma agonia física de ficar completamente imóvel face à dor inflexível por longos períodos de tempo. Discípulos hindus subjugam suas vontades à vontade do Guru; Budistas Tibetanos seguem a vontade de seu Lama sem questionamentos. Um santo tibetano recente, Milarapa, foi forçado por seu orientador a submeter-se a um trabalho físico duro, doloroso e árduo sem questionar a vontade do mestre antes de ser aceito como aluno.

Se, de fato, a história da civilização é recheada de relatos sobre uma conexão masoquista/espiritual, como a atitude masoquista se liga à transformação espiritual? Qual exatamente tem sido o apelo da submissão masoquista a personagens espiritualizados por tantas eras?

Uma resposta possível é que a sociedade moderna foi muito influenciada pela mentalidade de “áspero individualismo” de Horatio Alger. As metas da psicoterapia contemporânea têm sido direcionadas para construir egos fortes, competitivos, racionais e bem-resolvidos. Tenha responsabilidade, tenha controle. Garanta você mesmo. Mas, a que preço? A construção de um ego forte é apenas um lado da moeda. Para experimentar a abundância da experiência humana, precisamos de passividade e receptividade assim como de asserção. Precisamos de estar em contato com o que o psicoanalista Carl Jung chamou de “a sombra” – o fraco, limitado, degradado, pecador lado de nós mesmos como também o lado forte, amável, compassivo e competente.

Precisamos deixar o ônus de nosso egocêntrico modo de ver a vida; de abdicar do controle e ao mesmo tempo, tê-lo. A submissão masoquista, centrando na falta, inadequação e fragilidade, coloca-nos em contato com o todo de nossa humanidade. Humanidade plena requer rendição ao lado baixo da vida como também ao alto. Penitentes religiosos sabiam dos desejos de sofrimento da alma. Eles sabiam que isso nos afasta da insolência, ou do orgulho que nos mantém na limitada perspectiva de ter muita fé em nossa competência e habilidades. Os Cristãos e místicos orientais sabiam disso. “Humilhação é o caminho para a humildade e sem humildade, nada agrada a Deus,” dizia São Francisco de Assis.

Uma cena desnuda o ego de suas defesas, ambições, conhecimento de si mesmo e sucesso. O ego começa a ser subserviente ao Mestre, ao Dominador, à Alma, ou a Deus. Se chamamos isso submissão ao Dominador ou à vontade de Deus, ainda assim será submissão – uma das indicações da postura masoquista. Os componentes masoquistas – a vontade de servir, de submeter-se, de entregar-se ao outro sexualmente, emocionalmente e fisicamente, faz um escravo tanto a um homem, a uma mulher ou a Deus. Submissão a uma paixão é degradação divina.

Outra similaridade entre masoquismo e êxtase místico é que ambos são motivados pelo desejo de esquecimento e libertação; para livrar-se da carga de si mesmo com todos os seus conflitos, pesos e limitações. Em outros tempos isso poderia ser chamado de busca por um êxtase místico no qual o indivíduo é tão arrebatado de si mesmo que sua identidade se extingue em sublime união com algo superior.

Na submissão, o indivíduo é tirado de suas limitações pessoais e transcende as sanções sociais enquanto ao mesmo tempo é reduzido, enfraquecido e humilhado. Com os narizes pressionados contra a realidade presente do sofrimento humano, é a um só tempo uma derrota agonizante e magnífica jornada espiritual.

Fonte: http://carcereiro.110mb.com/artigos/a104.htm

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