
Noite quente na cidade e em cada quarto uma história diferente: Domme não teve o menor trabalho em adormecer, parte pelo vinho que ingerira e também pela placidez que experimentara depois da experiência única que tivera em companhia da Senhora e de aleph.
Essa, por sua vez, com alguma dificuldade conciliava o sono, imersa nas sensações que não conseguira ainda dissipar as sensações que experimentara e que a conversa que tiveram não conseguiram dissipar.
A insônia, inicialmente atribuída ao calor, foi entendida nos termos que realmente era e pelos motivos corretos. Vestindo um roupão já que costumava dormir nua, a Senhora escreveu um bilhete e colocou-o por baixo da porta de aleph. Não temia que a nota fosse achada antes do tempo devido já que conseguia sentir o ressonar da respiração do submisso e quando isso acontecia, o sono estendia-se até a manhã seguinte.
Dormiam na ala nova que a Senhora construira no terreno que comprara anexa ao Templo. Todos os quartos eram suítes permitindo aos seus "habitantes" manterem a privacidade necessária com autonomia para acordarem a hora que desejassem com exceção de aleph que deveria acordar na hora estabelecida pela Senhora e como sabemos , ele fora liberado daquela obrigação naquele dia.
Horas depois, o sol rompia a janela da Senhora ainda insone. Aproveitou do momento para banhar-se e vestir-se de forma descontraída sem dispensar, todavia, as botas que faziam parte quase cotidiana de sua indumentária , com exceção dos dias de trabalho onde usava saltos altos mas evitava as botas como que para consagrá-las à função que tinham de marcar a sua posição de dominadora.
Domme acordara logo depois e também banhara-se e vestiu-se de uma forma que traduzia bem a imagem que se fazia dela, alguém jovem, sem formalidades e que aos poucos ia adotando as formalidades de sua nova posição mas apenas no contexto das sessões.
Cumprimentaram-se com beijos no rosto e a Senhora disse-lhe ter sido conveniente que tenha acordado cedo.
- Temos alguma coisas para fazer na cidade, minha amiga. Venha comigo.
- E aleph? - perguntou sentindo a falta dele.
A Senhora não respondeu e disse apenas um "vamos" margeando as mensagens cifradas quando se diz muito sem nada se falar. Pegou as chaves do carro, desceu pela escada e dirigiu-se ao carro, abrindo a porta para sua amiga.
Ligou o automóvel e acelerou profundamente como que para mandar uma mensagem a aleph que ainda dormia e sim, foi nesse momento que aleph levantou-se e, demorando para acordar de fato, percebeu que o carro que partia era de sua Senhora, conseguia reconhecê-lo pelo som do motor.
Porque fora deixado ali? Não entendia o porquê e também não ousaria perguntar mesmo que tivesse alguém para fazê-lo. Ao levantar, achou a nota da Senhora que estava afastada da porta mas só poderia ter sido colocada pelo vão:
"aleph.
Deverá ficar em seu lugar até que seja ordenado a sair. Tome seu banho, vista-se conforme o costume e aguarde sentado em sua escrivaninha. Você está proibido de fazer uso de qualquer aparelho sonoro ou livro permanecendo sentado até que sua Senhora determine diferentemente".
O primeiro pensamento que atravessou a cabeça de aleph foi o de não estarem bem resolvidas as questões do dia anterior e aquela ordem parecia, de fato, uma punição. Seria a emoção que vira no rosto da Senhora um engodo para fazê-lo falar mais e cair em uma armadilha de falsos sinais? Por um momento sentiu um profundo sentimento de raiva de si mesmo por permitir-se cair em tal armadilha mas também a tristeza de ver que para um erro aparentemente desculpável jamais haveria perdão, apenas penitência e arrependimento.
Como submisso pouco haveria a fazer senão cumprir todas as ordens que ainda restavam serem cumpridas e esperar o tempo que fosse.
Temia abrir as janelas mesmo para que entrasse ar e luz de um dia quente que estava lá fora. Após tomar banho, a única fonte de iluminação e de ar fora a basculante que estava aberta e deixava entrar quantidades limitadas de tão necessários elementos da natureza.
No mais, o quarto estava em uma penumbra e assim foi deixado. A cama fora arrumada, os lençóis trocados conforme o costume e deixados dobrados em um canto do quarto até que pudessem ser colocados na lavanderia.
Enquanto isso, Domme e a Senhora tomavam seu café da manhã em uma padaria não muito distante do local de onde iriam fazer algumas compras necessárias para as atividades do dia. Havia uma pergunta que de certa forma angustiava Domme mas também não ousava pronunciá-la até porque percebera que não havia como discutir as decisões de sua amiga.
- Eu sei o que está pensando, Domme... - disse a Senhora em voz baixa - Quer saber o porquê de aleph ter sido deixado para trás.
Domme riu da perspicácia de sua amiga, da capacidade que tinha de praticamente advinhar seus pensamentos.
- Como você consegue advinhar o que eu estou pensando?
- Meu pai era leitor de ficção científica e me dizia uma frase de Isaac Asimov que eu simplesmente gravei para sempre: "Quem vê o óbvio, prediz o inevitável". E quer saber o que aleph está pensando nesse exato momento?
aleph pensava que fora abandonado e essa quase certeza o angustiava de forma absoluta como seria facilmente perceptível. Esse era o tipo de punição que começava a detestar, a de sentir-se sozinho na certeza da culpa que tinha em algo que não via culpa alguma, não era claro que pudesse controlar ou negar que fora estimulado.
Qual é o limite do auto-controle? Haveria de negar o prazer que sabia que sua Dona sentiria com sua entrega? Como advinhar que aquela experiência seria tão chocante para Ela a ponto de provocar uma reação como aquela que não conseguira antecipar?
Das muitas vezes que cometera erros evidentes, a punição fora clara e direta, inclusive com a retirada da coleira que seria devolvida depois sob a condição de um período probatório, exatamente esse pelo qual passava e não desejava falhar.
- ... e aleph pensará que é uma punição pelo prazer que teve contigo o que não é sequer o caso. Terá que testar algumas de suas qualidades, aquelas que eu sei que ele tem mas que não parecem evidentes nem à ele mesmo.
- Quais seriam essas qualidades?
- Lealdade, temor, obediência, vontade de aprender, aplicação... Ele já cometeu muitos enganos mas hoje caminha na direção certa.
- E para que prová-lo dessa forma tão forte, Senhora?
- Porque não, Domme? Será que nossas peças não precisam da perpétua educação do sentido da submissão e que a propriedade é um estágio que pode ser tomado ou dado conforme aquilo que se possa oferecer ao seu ou sua Dominante?
- Não há o limite o do bom senso, Senhora?
- O que é bom senso, Domme? Como medí-lo? Não se iluda com essa história da carochinha. Existem percepções absolutamente objetivas de bem ou mal estar e decidir até onde ir ou além de onde ir é uma questão que apenas a nós diz respeito. Já disse que isso é nossa responsabilidade e cada vez mais sei o que aleph pode e não poderá fazer ou suportar.
- Não tenho dúvidas disso, Senhora... Nenhuma aliás e bem sei o valor do que deseja fazer aleph experimentar e aprendo cada vez mais com isso.
- Que bom que é útil para você Domme, como está sendo útil para aleph. Espero que ambos aproveitem e bem o que está sendo ensinado. A quanto tempo estamos fora de casa?
Domme consultou o seu relógio e informou que já fazia uma hora e quinze minutos que estavam ausentes e a Senhora disse ser momento de fazerem o que mais era necessário e retornar para retirar aleph de seu isolamento.
Ele, por sua vez, adormecera sentado na cadeira e tivera um sonho intrigante com sua Dona. Senhora e Domme apreciam com vestes trocadas, ou seja, a primeira de negro e a segunda de branco.
- E agora, aleph... Consegue resolver a confusão em sua mente? Diga: com quem quer e gosta de ter prazer?
- Com.... - hesitou como tomado de paralisia - A....
Olhou novamente nas duas e agora cada uma vestia a roupa costumeira, invertendo os papéis.
- Com quem aleph?
- Com...
- Com quem aleph???
- Com a ... Senhora....
aleph teve vontade de gritar mas controlou-se, acordando assustado e ainda sentado na cadeira onde estava.
- Bem , cara Domme, é hora de voltar. Temos tudo o que precisamos e não precisaremos mais sair do Templo.
- Vamos, então.
O caminho não era longo mas algo parecia estar despertando na cabeça da Senhora. Qual é o limite? Para onde direcionar o aprendizado de aleph de forma que não ficasse de alguma forma um resquício de sentimento de inadequação que sempre ocorre nos momentos de punição? Principalmente, já antevendo o que poderia estar acontecendo, como fazer que um sentimento de vingança não se generalizasse quando o que de fato ocorria era apenas mais uma etapa no ensino e no aprendizado?
aleph ouviu o carro parar na garagem e tentou, o máximo que pode, ocultar o sentimento imenso de inadequação que tinha em seu coração. Queria , e muito, ouvir a voz de sua Senhora mas tudo que conseguiu ouvir foram os passos, a caminhada em silêncio, primeiro na parte externa, após dentro do Templo e agora no hall.
A chave girou na porta que se abriu e aleph não pode resistir ao fato de se dirigir correndo à sua Dona e jogando-se no chão, beijar Seus pés implorando o perdão pela sua grande falha.
- Levante-se aleph! - ordenou docemente.
Pela primeira vez em muito tempo, viu lágrimas de dor nos olhos de seu servidor e apressou-se em esclarecer que não se tratara de uma punição mas apenas de mais uma etapa do aprendizado mas pareceu que isso não acalmava aleph que continuava a suplicar-Lhe o perdão do qual se achava merecedor.
A Senhora acolheu-o em seus braços, enxugou suas lágrimas e confortou-o com a aprovação que era a base de todo relacionamento e sentiu ternura, muita ternura por sua peça. O conforto que poderia dar era escasso mas importante para aleph que, trazido para a sala, teve licença para tomar seu café de manhã com as dominantes.
Como prosseguir agora nesse aprendizado? - pergunto a si mesmo a Senhora - Como será daqui para a frente?
As respostas viriam, inevitavelmente, assim como as lições que não podiam deixar de ser aprendidas.
(Fim da parte 10)